Entrevista com Verena Kast - Psicologia Analítica e Emoções - em parceria com o Instituto Junguiano do RJ
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Verena Kast, 83 anos, renomada analista junguiana, discute temas centrais de sua obra e da psicologia analítica. Ela aborda o início de seu interesse pelas obras de Jung, a importância de uma identidade junguiana ampla e criativa, a centralidade das emoções e da memória autobiográfica em sua teoria, destacando as "narrativas de complexo" como cruciais para o trabalho terapêutico. Kast defende a revitalização do trabalho com a imaginação ativa, argumentando que a vida mediada por telas empobrece a imaginação pessoal, apesar de os devaneios (pensamentos autogerados) serem essenciais para a saúde mental. Por fim, ela propõe que a psicologia analítica se dedique a temas como a substituição da competitividade pelo cuidado e o enfrentamento da "negatividade irrefletida", e reflete sobre como comunicar ideias complexas de forma simples e emocionalmente conectada.
Nós gostaríamos de começar com a Verena Kast, antes de você se tornar psicoterapeuta, começar pelas memórias do seu primeiro contato e interesse pelas obras de Jung.
Verena: “Eu tinha 18 anos e ainda estava no último ano do ensino médio, quando o nosso professor de religião entrou na aula. E ele costumava ser um homem muito depressivo, melancólico, e naquele dia ele entrou com grande felicidade e disse: “o grande herege de Zurique morreu”.
Quando a gente soube que ele tinha morrido, todos nós corremos para a livraria mais perto e todos nós compramos o livro do Carl Gustav Jung, porque, é claro, nós ficamos muito curiosos com o anúncio do nosso professor.
E também, os jornais publicaram muitas matérias quando o Jung morreu. Foi assim que eu soube que o Jung trabalhava com sonhos, e eu sonhava muito, então percebi que o trabalho do Jung parecia ser algo muito bom.
Em 1965, entrei na faculdade e na época, era claro, que se você queria estudar psicologia, tinha que estudar Psicologia Profunda*... Mais tarde, escolhi o Instituto C.G. Jung para minha formação que era o mais "caótico e vivo" de Zurique.”
Pontos Chave
Identidade Junguiana: A psicologia junguiana é inerentemente ampla e criativa, não devendo ser confinada a uma identidade ideológica ou a um modelo normativo do que "um junguiano deveria ser".
Emoções e Memória: As emoções são a base da personalidade e o centro do trabalho terapêutico. A memória autobiográfica, especialmente a memória episódica**, é um "tesouro" que permite transformar generalizações em "narrativas de complexo" - memórias concretas e carregadas de emoção que são o verdadeiro material para a análise. O modelo da memória episódica de Endel Tulving a ajudou a explicar como os complexos se formam a partir de experiências concretas. Em vez de uma generalização como "tive um pai difícil", a psicoterapia deve focar em uma narrativa específica e emocional, como a lembrança de um pai humilhando o filho. Quando essa memória é revivida com toda a sua carga emocional, ela se torna uma "narrativa de complexo" com a qual se pode trabalhar.
Imaginação: A psicologia analítica deve manter e encorajar o trabalho com a imaginação ativa como seu método principal. A vida moderna, dominada por telas, empobrece a imaginação pessoal, embora os devaneios (pensamentos autogerados) sejam agora reconhecidos pela neuropsicologia como cruciais para a saúde mental.
No livro Imaginação, você fala sobre pensamentos autogerados. Poderia falar mais sobre isso?
Verena: “...foram encorajados a pesquisarem porque quando as pessoas trabalham de forma concentrada no escritório, a atenção dessas pessoas se desvia constantemente. Elas se concentram nessas fantasias e então essas fantasias se transformam em imaginações.
Daí surgiu a ideia de um contínuo entre sonhos e fantasias, porque esses devaneios durante o dia são pensamentos autogerados que não dependem de um impulso externo. E quando dormimos, não nos interrompemos. Existe também no sonho. Nós também não temos o impulso externo, gerando esses pensamentos.
E o que é interessante é que o C. G. Jung já disse em 1916 que a fantasia se mostra no sonho. Ele também tinha a visão de que o complexo afeta os sonhos. Nós também sonhamos no dia a dia, abaixo do limiar da consciência. Na época, todo mundo ria e zombava dos junguianos que afirmavam isso. E hoje, a neuropsicologia confirma isso.
Hoje em dia, esse espectro entre sonhos e fantasias não é questionado. Isso nos permite também usar a imaginação para trabalhar os sonhos, ou quando a pessoa não tem sonhos, usar a imaginação ou a fantasia para trabalhar determinadas imagens.”
Sonhos e Fantasias: Existe um contínuo entre os sonhos noturnos e os devaneios diurnos (fantasias), pois ambos são pensamentos autogerados que não dependem de estímulos externos, confirmando uma teoria de Jung de 1916.
Temas Atuais: A sociedade contemporânea, focada em competição, se beneficiaria de uma mudança para o cuidado mútuo. A "negatividade irrefletida", uma forma de projeção de sombra, é um fenômeno generalizado que precisa ser trabalhado conscientemente.
Se você fosse se debruçar sobre um novo tema de pesquisa hoje em dia, o que você consideraria imprescindível de ser pensado pela psicologia analítica nos tempos atuais?
Verena: “essa é uma pergunta difícil... Por exemplo, acho que temos uma sociedade muito focada em competição, muito focada em luta.
As nossas sociedades do mundo hoje em dia se baseiam muito em competição e concorrência. E eu acredito que, se nós desenvolvêssemos sociedades voltadas mais para o cuidado com o outro, seríamos capazes de construir um mundo melhor.
Outro tema que eu considero muito importante é o tema da “negatividade irrefletida”.
Nós temos essa tendência de ver tudo de forma negativa. Nós acordamos de manhã e já ficamos imaginando tudo o que pode dar errado. Nós assustamos uns aos outros com isso e destruímos relacionamentos.
Isso é projeção de sombra. Se nós conseguíssemos lidar de forma mais consciente com isso, nós também seríamos capazes de enfrentar melhor os problemas que o mundo enfrenta hoje.
Então, se você se perguntar, no fim do dia, “o que aconteceu de ruim hoje?”, a gente tem que responder “nada”.
A psicologia analítica é conhecida por sua complexidade, profundidade e por trabalhar com inúmeras outras áreas do conhecimento, como a filosofia, a mitologia, a religião, citando apenas algumas.”
Comunicação: A capacidade de comunicar ideias complexas de forma simples deriva de uma compreensão profunda e do desejo de se conectar emocionalmente com o público.
A Senhora, em suas obras, consegue transmitir esse conteúdo de forma simples e compreensível a um público que, muitas vezes, está tendo seu primeiro contato com a psicologia. Como faz para falar a esse público, tocá-lo e ensiná-lo sem perder o rigor conceitual?
Verena: “Eu não sei como eu faço. Isso eu simplesmente escrevo, mas existe uma um desejo genuíno que é “eu quero que as pessoas me entendam”. Eu tenho também um certo “Eros” que quer ensinar algo às pessoas. Eu acredito que quando nós realmente entendemos algo a fundo, conseguimos expressar isso de maneira simples. Aí não precisamos usar mais palavras inteligentes. Eu fico muito feliz por ter uma linguagem que consegue alcançar as pessoas, mas isso tem a ver com as emoções. Eu falo e me dirijo às emoções das pessoas.”
*A Psicologia Analítica (também conhecida como Psicologia Junguiana) é uma vertente da Psicologia Profunda.
A relação entre os dois termos é a seguinte:
Psicologia Profunda: É um termo mais amplo. Refere-se a qualquer abordagem clínica ou de pesquisa que estude o inconsciente e os impulsos ocultos como determinantes do comportamento humano.
Psicologia Analítica: É uma linha específica dentro da Psicologia Profunda. Desenvolvida pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, ela utiliza conceitos como o inconsciente coletivo, os arquétipos e o processo de individuação.
Portanto, toda Psicologia Analítica é uma Psicologia Profunda, mas nem toda Psicologia Profunda é Analítica (a Psicanálise de Freud e a Psicologia Individual de Adler também fazem parte dessa categoria).
**A memória episódica é a capacidade de recordar experiências e eventos pessoais do nosso dia a dia, associados a momentos e locais específicos. É como a nossa "viagem mental no tempo", permitindo reviver conscientemente o que aconteceu, onde ocorreu e as sensações sentidas em um determinado episódio da nossa vida
Obras traduzidas para o português:
-Imaginação: Espaço de autoconhecimento e liberdade
-O sentido do medo: como medos se instalam e como eles podem ser transformados
-O significado dos conflitos
-A ansiedade e formas de lidar com ela nos contos de fadas
-A natureza do amor: padrões de relacionamento humano
-O amor nos contos de fada
-Tornar-se um consigo mesmo: identidade e autoestima em um mundo complexo
-A alma precisa de tempo
-O caminho para si mesmo
-A sombra em nós: a força vital subversiva
-Abandonar o papel de vítima: viva sua própria vida
-Luto: fases e chances do processo psíquico
-Filhas de pai, filhos de mãe: complexos de pai e mãe e caminhos para a identidade própria
-Quando os filhos saem de casa: deixar ir e se reencontrar
-Jung e a Psicologia Profunda: um guia de orientação prática
-A dinâmica dos símbolos: fundamentos da psicoterapia Junguiana (Reflexões Junguianas)
