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  • Asperger colaborou com programa de eutanásia nazista, diz estudo em 2018

    Documentos mostram que psiquiatra austríaco legitimou políticas de “higiene racial” O austríaco Hans Asperger (1906-1980) ganhou notoriedade mundial com seus estudos sobre psiquiatria e pediatria infantil. Emprestou seu nome à síndrome de Asperger, uma forma de autismo. Agora, a fama de pioneiro na área médica é manchada pela descoberta de que teria construído sua carreira a partir de colaborações ao regime nazista. Documentos e registros de pacientes obtidos pelo historiador médico austríaco Herwig Czech mostram que Asperger legitimou políticas de “higiene racial” do Terceiro Reich. Em um artigo publicado em 2018 na revista Molecular Autism, Czech analisou 1.012 documentos escritos pelo pediatra entre 1938 e 1944 e que estavam esquecidos no Arquivo Municipal de Viena. Embora nunca tenha sido membro do Partido Nazista, Asperger uniu-se a diversas organizações ligadas a Hitler que praticavam esterilizações forçadas e, em várias ocasiões, cooperou ativamente com o programa de eutanásia infantil. Até sua morte, em 1980, o pediatra negou envolvimento com esses programas. Revelou, inclusive, que teria sido procurado pela Gestapo, a polícia secreta do Reich, por se recusar a entregar crianças para o governo. A linguagem empregada no diagnóstico de seus pacientes era dura, contrariando a ideia de que ele tentava protegê-los, apregoada durante décadas por seus defensores. Em um de seus documentos, Asperger avalia que as crianças enviadas para a clínica de Am Spiegelgrund, em Viena, não se enquadravam nos critérios do regime nazista de “valor hereditário” e “pureza racial”. Quase 800 crianças morreram na instituição entre 1940 e 1945 — muitas foram assassinadas por métodos como envenenamento. IDIOTIA E IMBECILIDADE Segundo o estudo, Asperger aconselhou o envio de duas meninas para Am Spiegelgrund — Herta Schreiber, de 2 anos, e Elisabeth Schreiber, de 5. O pediatra anotou que Herta tinha “transtorno de personalidade grave (...), idiotia erética. (...) Em casa a criança deve ser um fardo insuportável para a mãe, que deve cuidar de cinco crianças saudáveis. A colocação permanente em Spiegelgrund parece absolutamente necessária”. Elisabeth também foi retratada como portadora de “imbecilidade”. Sua internação seria “a melhor possibilidade” para que não fosse uma ameaça aos irmãos. Asperger também participou de uma comissão encarregada da vistoria de uma instituição de Viena dedicada à assistência de 200 crianças com deficiência mental. O objetivo era dividi-las segundo suas habilidades intelectuais. Trinta e cinco foram consideradas “incultas” e, por isso, foram mortas em Spiegelgrund. Czech ressalta que a atitude ambivalente do pediatra em relação aos nazistas já era visível em um diário de abril de 1934, quando o austríaco passou algum tempo na Alemanha, já governada por Hitler. Em suas anotações, ele afirma: “Como um povo inteiro marcha em uma direção, fanático — com visão estreita, certamente, mas com entusiasmo e dedicação, com enorme disciplina e vigor formidável”. Após a anexação da Áustria à Alemanha, em 1938, um decreto que reorganizou o serviço público profissional classificou Asperger como “politicamente aceitável”. Na época, o pediatra começou a assinar seus relatórios com a saudação “Heil Hitler” — um gesto que, segundo Czech, é “meramente simbólico, mas revelador”. Dois anos depois, o estreitamento das relações entre Asperger e o Reich repercutiram em uma avaliação elogiosa em outro relatório: “Em relação às questões das leis raciais e de esterilização, ele (Asperger) está em conformidade com as ideias nacional-socialistas. Com relação ao seu caráter e em termos políticos, ele é considerado incontestável”. O historiador avalia que a medicina desempenhou um papel fundamental para a consolidação do regime nazista: — Esperava-se que os médicos implementassem o programa de “higiene da raça” e fortalecessem a força biológica do povo alemão — explica. — O nacional-socialismo era uma ditadura “biopolítica”. Para atingir seus objetivos, o regime realizou esterilizações forçadas em centenas de milhares de pessoas consideradas “biologicamente inferiores” e matou aproximadamente 200 mil pacientes psiquiátricos. Autor do livro “High Hitler”, sobre o envolvimento do Führer com drogas, o jornalista alemão Norman Ohler considera que Asperger soube tomar medidas para se adaptar à realidade imposta pelo governo. — A medicina é uma das categorias profissionais em que há maior envolvimento com o nazismo — assinala. — A expectativa é que a ciência corroborasse as experiências horríveis realizadas nos campos de concentração. E a saudação “Heil Hitler” havia se tornado obrigatória, mesmo dentro de casa. Czech reconhece que seu estudo pode provocar polêmicas relacionadas ao nome da síndrome de Asperger: — Algumas pessoas diagnosticadas podem achar difícil ouvir essa história, mas não conseguiria esconder minhas descobertas. No editorial, um dos editores-chefes da Molecular Autism, Simon Baron-Cohen, também admitiu que a pesquisa pode incitar debates: “Estamos cientes de que o artigo e sua publicação serão controversos”, sublinhou. “Acreditamos que ele merece ser publicado a fim de expor a verdade sobre como um médico que, por muito tempo, era visto apenas como tendo feito contribuições valiosas para o campo da pediatria e da psiquiatria infantil era culpado por ajudar ativamente os nazistas em suas abomináveis políticas de eugenia. Essa evidência histórica deve ser disponibilizada”. Carol Povey, membro da National Autistic Society do Reino Unido, afirmou, em entrevista ao site Science Media Centre, que espera que a descoberta gere uma conversa entre as famílias de pessoas com o transtorno: — O autismo afeta a todos de maneira diferente, e as pessoas geralmente têm seu próprio jeito de falar sobre isso. Ouviremos atentamente a resposta a essa notícia para que possamos nos certificar de que a linguagem que usamos reflete as preferências das famílias. Obviamente, ninguém com um diagnóstico de síndrome de Asperger deve se sentir contaminado por essa história tão preocupante. FONTE: https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/asperger-colaborou-com-programa-de-eutanasia-nazista-diz-estudo-22607998

  • TDAH nas epilepsias: prevalência e fatores de risco

    RESUMO O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) representa uma das comorbidades mais prevalentes da epilepsia, mas a associação entre ambas as condições é pouco compreendida. Esta revisão sistemática da literatura foi realizada em base de dados eletrônica (Medline/Pubmed), no recorte 2011-2016, com o objetivo de investigar os fatores associados à comorbidade. Aplicados os critérios de elegibilidade, foram selecionados 15 artigos. A prevalência de TDAH na epilepsia variou amplamente de 5,3% a 64,9%. Apesar de o TDAH estar presente nas epilepsias focais e generalizadas, alguns tipos ou síndromes epilépticas, como a epilepsia rolândica e a epilepsia frontal, foram fortemente associados aos sintomas de TDAH, especialmente naqueles indivíduos com epilepsia recém-diagnosticada, com crises pouco controladas e com eletroencefalograma anormal. Palavras-chave: epilepsia; TDAH; comorbidade; fatores de risco; prevalência. Introdução A epilepsia, uma doença cerebral caracterizada pela predisposição persistente do cérebro para gerar crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais dessa condição (Fisher et al., 2005), acomete cerca de 65 milhões de pessoas no mundo (Thurman et al., 2011). A epilepsia é a doença neurológica mais comum em crianças e adolescentes até 16 anos, e a prevalência estimada varia de 3,2-5,5/1.000 nos países desenvolvidos e de 3,6-44/1.000 nos países em vias de desenvolvimento (Camfield e Camfield, 2015). Crianças com epilepsia apresentam frequentemente transtornos neuropsiquiátricos. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o Transtorno de Aprendizagem e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) são mais prevalentes em crianças com epilepsia do que naquelas sem epilepsia e aproximadamente metade das crianças com epilepsia requerem maior assistência educacional (Ferrie et al., 1997). O TDAH, caracterizado por deficit de atenção, desorganização e/ou hiperatividade e impulsividade, acomete de 5% a 7% dos escolares, e são reconhecidas três apresentações: Predominantemente Desatenta, Predominantemente Hiperativa e Impulsiva e a apresentação Combinada (American Psychiatric Association [APA], 2014). A alta comorbidade de TDAH e epilepsia sugere a existência de um mecanismo neurobiológico comum e de uma relação bidirecional entre ambas as condições, aventando-se a participação de fatores genéticos subjacentes a transtornos do neurodesenvolvimento, tipo de epilepsia, efeito das crises epilépticas recorrentes e mecanismos iatrogênicos (Hamoda, Guild, Gumlak, Travers, & Gonzalez-Heydrich, 2009; Gonzalez-Heydrich et al., 2012). Considerando que a epilepsia e o TDAH são comuns na infância e que ambos podem provocar significativas consequências negativas para o comportamento, aprendizado e comportamento social, o objetivo desta revisão sistemática é investigar os fatores associados à comorbidade; o que poderá trazer subsídios para o acompanhamento e a intervenção precoce, com o intuito de minimizar os prováveis prejuízos dos sujeitos acometidos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes e familiares. Método Os artigos foram selecionados pela autora principal, no primeiro semestre de 2016, na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos da América, por meio do Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica, utilizando "ADHD" e "epilepsy" como descritores. Foram encontrados 311 artigos em periódicos indexados publicados entre janeiro de 2011 e abril de 2016. A partir da leitura de títulos e resumos dos periódicos, foram selecionados 23 artigos que avaliaram os valores de prevalência de TDAH em indivíduos com epilepsia, e excluídos os artigos de revisão. Posteriormente, a apuração foi efetuada por duas juízas, de modo independente, as quais realizaram leituras criteriosas do material e excluíram aqueles que não identificaram o tipo de epilepsia na casuística, elegendo 15 manuscritos para serem discutidos criticamente na presente revisão sistemática (Quadro 1). Para a exclusão dos artigos, as juízas realizavam a leitura integral dos textos conjuntamente e, após análise minuciosa dos artigos, decidiam consensualmente pela exclusão. Para a avaliação dos fatores preditores de TDAH nas epilepsias (Quadro 2), foram selecionados os artigos que investigaram uma das seguintes variáveis: tipo de epilepsia, idade de início e duração da epilepsia, frequência de crises, história de status epilepticus, história de convulsão febril, história familiar, utilização de fármacos antiepilépticos, descargas epileptiformes não convulsivas e outras doenças associadas. Resultados e Discussão Epilepsia e TDAH são distúrbios neurológicos comuns na infância, mas a relação entre ambos é complexa e mal compreendida. A ampla dispersão na prevalência de TDAH na epilepsia aponta para um conjunto de variáveis contribuintes. Neste estudo foram registradas prevalências de TDAH em crianças com epilepsia que variaram de 5,3% a 64,9% (Quadro 1). As variáveis contribuintes identificadas nos artigos incluíram o tipo de epilepsia ou síndrome epiléptica associada com pouco controle das crises e as descargas epileptiformes, particularmente durante a fase ativa da epilepsia (Quadro 2). A maior prevalência de TDAH foi de 64,9% em crianças com epilepsia rolândica, a síndrome epiléptica mais comum da infância, com maior prevalência em meninos e elevado determinante genético (Kim, Yum, Kim, & Ko, 2014). Entre as 198 crianças acompanhadas pelo serviço terciário de referência, 74 crianças foram incluídas, uma vez que a maioria dos pais refutou a participação dos filhos por não considerar necessária uma avaliação neuropsicológica. As crianças com maior frequência de crises e com descargas centrotemporais foram as que apresentaram maior prejuízo na atenção seletiva. A prevalência elevada de TDAH nessa casuística pode ser atribuída a uma combinação de fatores, como o tipo de epilepsia, a amostra de conveniência que apresentava crises não controladas e eletroencefalograma anormal, aliada a não utilização de escalas padronizadas para o diagnóstico de TDAH. Este estudo corrobora o de Fonseca, Tedrus, Tonelotto, Antunes, & Chiodi (2004), que relataram que crianças com epilepsia rolândica apresentaram desempenho inferior no subteste de leitura e no escore total mais frequentemente do que as sem epilepsia, e aquelas com maior número de descargas centrotemporais apresentam desempenho inferior em leitura comparativamente àquelas com desempenho médio e superior. A literatura aponta que as descargas epileptiformes clínicas impactam o desempenho nos testes neuropsicológico relacionadas com o lobo frontal (Chaudhary et al., 2013; Dinkelacker, Xin, Baulac, Samson, & Dupont, 2016). A epilepsia do lobo frontal é o segundo tipo mais comum de epilepsia da infância e fortemente associada com TDAH. Está amplamente estabelecido que o lobo fontral medeia um papel importante no controle das funções executivas que abarca, entre outros, o controle inibitório, a atenção seletiva e o planejamento de ações direcionados a uma meta, e que ambas, lesões estruturais ou funcionais, como um foco epiléptico nos lobos frontais, podem interferir com essas funções e levar a prejuízos cognitivos e comportamentais. Zhang, Li, Zhu, & Sun (2014) diagnosticaram TDAH em 59% das crianças com epilepsia do lobo frontal, e 89% delas estavam na fase ativa da doença e apresentavam alteração do eletroencefalograma na ocasião do diagnóstico, sugerindo uma estreita associação entre as descargas epileptiformes e o prejuízo das funções corticais frontais com a incidência elevada de TDAH. As pesquisas de G. H. Kim et al. (2012) e de Kang, Yum, Kim, Kim, & Ko (2015) reforçam as evidências que pacientes com epilepsia recém-diagnosticada e com crises não controladas apresentam mais sintomas de TDAH, independentemente do tipo de epilepsia. G. H. Kim et al. (2012) e Kang et al. (2015) não encontraram diferença na estimativa de TDAH entre a epilepsia focal e generalizada, porém a prevalência foi extremamente distinta (6,9% e 49,2%, respectivamente). A baixa prevalência de TDAH apontada por G. H. Kim et al. (2012) pode estar relacionada à exclusão da casuística de crianças na fase ativa da doença e que apresentaram crises nos últimos três meses que antecederam o diagnóstico de TDAH. Nos demais estudos, nos quais a frequência das crises não foi considerada como um fator de risco para os sintomas de TDAH (Duran et al., 2014; G. H. Kim et al., 2012; E. H. Kim et al., 2014; Kwong et al., 2016), a prevalência pode estar relacionada à baixa frequência de crises na casuística estudada, em decorrência dos estritos critérios de exclusão. Corroborando essa hipótese, Chidi, Chidi, Ebele, & Chinyelu (2014) identificaram, na regressão logística, a frequência de crises acima de 24 crises anuais e o eletroencefalograma anormal como fatores significantemente associados com TDAH. Ademais, é amplamente aceito que os medicamentos antiepilépticos causam prejuízos atencionais e que, por conseguinte, poderiam contribuir para a associação entre a epilepsia e o TDAH. No entanto, nos estudos analisados não foram encontradas evidências que os medicamentos antiepilépticos tenham contribuído para os sintomas do TDAH (G. H. Kim et al., 2012; E. H. Kim et al., 2014; Kwong et al., 2016). Em três estudos, a avaliação se restringiu em caracterizar em mono ou politerapia, sem ponderar os medicamentos utilizados individualmente (G. H. Kim et al., 2012; E. H. Kim et al., 2014; Kwong et al., 2016). No estudo de Chidi et al. (2014) não foi identificada associação entre a presença de TDAH com a utilização de carbamazepina, fenobarbital ou ácido valproico. Entretanto, está bem estabelecido que os medicamentos antiepilépticos produzem vários efeitos adversos que poderiam impactar o desempenho cognitivo e comportamental. O fenobarbital produz sintomas cognitivos, incluindo problemas com atenção e hiperatividade. Fenitoína, carbamazepina e ácido valproico também produzem os mesmos efeitos, porém em menor extensão que o fenobarbital. Gabapentina, tiagabina, vigabatrina e lamotrigina produzem poucos efeitos colaterais cognitivos (Williams, Giust, Kronenberger, & Dunn, 2016). Uma possível explicação para a ausência de efeito da terapia antiepiléptica seria o diagnóstico de TDAH ter sido realizado na vigência da farmacoterapia antiepiléptica e os potenciais efeitos adversos minimizados por adaptação fisiológica com a utilização em longo prazo. Na população pediátrica com TDAH, em geral, a apresentação combinada é a mais prevalente, mas, na epilepsia, a apresentação desatenta usualmente é a mais prevalente. Dentre os 15 artigos analisados, somente 8 se propuseram a identificar o tipo de apresentação de TDAH. A apresentação predominantemente desatenta foi a mais prevalente nos estudos de Berl et al. (2015), Chidi et al. (2014) e Duran et al. (2014), a apresentação combinada foi a mais prevalente na casuística de G. H. Kim et al. (2012), Kwong et al. (2016), Tanabe, Kashiwagi, Shimakawa, Tamai, & Wakamiya (2014) e Zhang et al. (2014), e Costa, Oliveira, Gomes, & Maia Filho (2015) não observaram diferença significante entre essas apresentações. Três variáveis podem ter contribuído para a maior ocorrência de uma das apresentações: o gênero predominante na casuística, o controle de crises e a presença de outras comorbidades. Tanabe et al. (2014) correlacionaram a apresentação desatenta ao sexo feminino e a apresentação combinada ao gênero masculino. A predominância de um dos gêneros pode explicar a prevalência da apresentação desatenta no estudo de Duran et al. (2014), em que 87,5% dos pacientes com TDAH eram do sexo feminino, bem como a prevalência da apresentação combinada no estudo de Zhang et al. (2014), no qual 81,0% da casuística era do gênero masculino. Nos estudos nos quais não houve diferença na predominância de gênero (Kim et al. 2012; Kwong et al. 2016), a apresentação combinada foi a mais prevalente. No estudo de Costa et al. (2015), o déficit de atenção alternada foi associado a uma maior frequência de crises e talvez tenha sido esse o fator que determinou a predominância da apresentação desatenta na casuística de Chidi et al. (2014), apesar de a casuística ser composta em sua maioria por meninos. A relação entre a epilepsia e o TDAH é complexa e não existe um único mecanismo fisiopatológico para explicar a associação entre ambas as condições. Nesse contexto, algumas hipóteses não excludentes têm sido propostas. A primeira argumenta que a co-ocorrência se deve a fatores circunstanciais independentes pelo fato de a epilepsia e o TDAH serem comuns na infância (Kaufmann, Goldberg-Stern, & Shuper, 2009). A segunda sugere a presença de fatores subjacentes comuns, como genéticos ou interação gene-ambiente (Gonzalez-Heydrich et al., 2012). Em um elegante artigo de revisão, Lo-Castro e Curatolo (2014) apontam que a co-ocorrência entre epilepsia e TDAH ou TEA tem uma patogênese complexa que resulta da alteração de vários mecanismos neurobiológicos envolvidos com o desenvolvimento cerebral, plasticidade sináptica, transmissão gabaérgica e com a conectividade funcional. Os genes candidatos identificados estão envolvidos na manutenção, formação e remodelagem sináptica (NRX1, CNTN4, DCLK2, CNTNAP2, TRIM32, ASTN2 CTNTN5), na neurotransmissão (SYNGAP1, GABRG1, CHRNA7) e na remodelagem da cromatina ou metilação do DNA (MBD5). Crianças com epilepsia apresentam maiores chances, comparativamente aos seus pares sem epilepsia, de apresentarem, além do TDAH, depressão, transtorno de ansiedade, problemas de conduta, atraso no desenvolvimento e TEA, e, por consequência, maiores dificuldades sociais e acadêmicas (Williams et al., 2016). A população pediátrica investigada nestes estudos frequentemente apresentou outros transtornos neuropsiquiátricos. Os principais transtornos psiquiátricos presentes nos estudos analisados foram transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de conduta disruptivo, bulimia psicogênica, transtorno de oposição desafiante, transtorno específico de aprendizagem, dislexia e TEA (Bedoin et al., 2012; Brabcova, Zarubova, Kohout, Jošt, & Kršek, 2015; Chidi et al., 2014; Dafoulis & Kalyva, 2012; E. H. Kim et al., 2014; Kwong et al., 2016; Tovia et al., 2011). Nesses casos, existe a possibilidade de que os sintomas de TDAH sejam resultantes, além da epilepsia, da combinação das manifestações clínicas de outras doenças neuropsiquiátricas, sugerindo que fatores genéticos subjacentes possam ter desempenhando um papel relevante para a prevalência e para a apresentação do TDAH. A terceira hipótese sugere que uma condição tem efeito causativo sobre a outra, por exemplo, o prejuízo das funções executivas tem sido frequentemente observado nas epilepsias focais (Bedoin et al., 2012; Filippini et al., 2016; Rai et al., 2015) e generalizadas (Gencpinar et al., 2016) e apontado como um fator de risco independente para doenças psiquiátricas na epilepsia, como o TDAH (Alfstad et al., 2016). Em consonância com a condição humana, os modelos animais de epilepsia sugerem a existência de uma associação entre os sintomas de TDAH e de epilepsia. Quando a epilepsia foi induzida em ratos, eles apresentaram hiperatividade e prejuízo das funções executivas, como impulsividade e desatenção (Faure et al., 2014; Pineda et al., 2014; Ramos, Carreiro, Scorza, & Cysneiros, 2016), ou seja, foram secundárias à epilepsia. Pineda et al. (2014) associaram o comportamento desatento e impulsivo dos animais com epilepsia do lobo temporal com o prejuízo da transmissão noradrenérgica no locus coeruleus. Nos estudos analisados, a casuística foi composta por pacientes com epilepsia, que poderiam ter ou não ter TDAH. Entretanto, o desenho metodológico não excluiu a possibilidade de o TDAH ter se manifestado antes do diagnóstico de epilepsia, de tal maneira que as variáveis clínicas da epilepsia deixariam de ser um fator de risco para os sintomas de TDAH. Com exceção, Chidi et al. (2014) estabeleceram como critério de inclusão o diagnóstico primário de epilepsia. Conclusão Com base nos estudos analisados, a prevalência de TDAH na epilepsia varia amplamente, mas é em geral maior do que na população geral. O TDAH está presente nas epilepsias focais e generalizadas, e as apresentações predominantemente desatenta e combinada foram as mais prevalentes. Alguns tipos ou síndromes epilépticas, como a epilepsia rolândica e a epilepsia frontal, foram fortemente associadas com os sintomas de TDAH, especialmente naqueles indivíduos com epilepsia recém-diagnosticada, crises pouco controladas e com eletroencefalograma anormal. Apesar de os medicamentos antiepilépticos apresentarem em teoria efeitos adversos que poderiam contribuir para os sintomas de TDAH, a farmacoterapia não desempenhou papel relevante para a sintomatologia. As conclusões mais contundentes deste estudo não excluem que outras variáveis, como a presença de outras comorbidades neuropsiquiátricas, frequentemente presentes em sujeitos com epilepsia, não tenham contribuído para os sintomas de TDAH, mas realça que, devido às limitações metodológicas dos estudos referente ao controle das variáveis clínicas e a benignidade das casuísticas, não foi possível identificar fatores preditores unânimes para a co-ocorrência. Referências Alfstad, K. 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  • Diferença entre uma crise epiléptica e uma crise psicogênica

    A crise não epiléptica psicogênica - CNEP - consiste em um diagnóstico operacional que, do ponto de vista neurológico, exclui o diagnóstico de crise epiléptica. Mais precisamente, as CNEPs são definidas como crises, ataques ou acessos recorrentes que podem ser confundidos com epilepsia devido à semelhança das manifestações comportamentais, mas que dela diferem por não serem consequentes de descargas elétricas cerebrais anormais. Do ponto de vista psiquiátrico, a presença de um padrão constante de CNEP pode conduzir aos diagnósticos de transtorno conversivo e de transtorno de somatização, conforme classificação do Diagnostic and statistical manual of mental disorders, 4ª ed. (DSM-IV). Na Classificação internacional das doenças, 10ª versão (CID-10), as CNEPs são incluídas na categoria dos transtornos dissociativos (ou conversivos), mais especificamente das convulsões dissociativas. Embora a expressão crise não epiléptica psicogênica - CNEP - seja de uso recente, diz respeito a um fenômeno bastante conhecido no meio médico, relatado, segundo vários autores, desde tempos remotos na história da medicina. A CNEP também é denominada crise pseudoepiléptica, crise conversiva ou crise histeroepiléptica. Sem levar em conta as diferentes origens e designações dos termos, estima-se que a CNEP apresente cerca de 15 sinônimos na língua inglesa. A partir da década de 1980, o diagnóstico de CNEP passou a contar com a monitorização pelo vídeo-EEG, o que foi considerado o 'padrão ouro' em termos de diagnóstico. Entretanto, na maioria das vezes há grande dificuldade na abordagem desses casos, no que diz respeito tanto aos diagnósticos neurológico e psiquiátrico quanto ao tratamento em si. As especificidades de diagnóstico e tratamento exigem, do ponto de vista psiquiátrico, conhecimentos sobre fenômenos conversivos e dissociativos, negligenciados pela neurologia e pela própria psiquiatria contemporânea. Do ponto de vista neurológico, esse diagnóstico exige conhecimentos sobre a epilepsia que, em geral, os médicos psiquiatras não possuem. Crises não epilépticas psicogênicas, abuso e trauma: década de 1990 Uma mudança relevante observada na década de 1990 foi a emergência frequente na literatura da associação entre diagnósticos de CNEP e histórias de abuso nas biografias dos pacientes. Na década passam também a ser mencionados os diagnósticos de transtorno do estresse pós-traumático - TEPT - e os transtornos dissociativos. Essas associações merecem ser discutidas, uma vez que, conforme apontam alguns estudos, a relação entre as crises não epilépticas psicogênicas e qualquer evento de natureza sexual não fora mencionada até então nos artigos médicos. Somente a partir desse momento se verifica uma proliferação de artigos nessa direção. Para além dos efeitos sobre o desenvolvimento das crianças e adolescentes, o abuso é um conceito que interage com a comunidade científica, a mídia e a sociedade. A partir da década de 1980, tal conceito foi-se constituindo como a pedra angular de um distúrbio mental que passou a ter proporções epidêmicas nos EUA: o distúrbio de múltipla personalidade, objeto de um número significativo de pesquisas, artigos médicos, seminários e menções na mídia. A partir da década de 1990 verifica-se igualmente uma retomada de interesse pela dissociação, no contexto das CNEPs. A dissociação permaneceu silenciosa até a década de 1980, com o surgimento, no DSM-III, do transtorno de múltiplas personalidades e de estresse pós-traumático. Há outra via para compreender e lidar com as CNEPs? A experiência prática com o atendimento psiquiátrico de pacientes com diagnóstico de CNEP, ao mesmo tempo que exemplifica os paradoxos na história de seu conceito, aponta alternativas de desenvolvimento para o manejo do quadro pela psiquiatria contemporânea. Propõe-se, nesse sentido, o cotejamento da discussão histórico-conceitual aqui realizada com a discussão de uma abordagem que o Projeto Epilepsia e Psiquiatria (PROJEPSI) vem desenvolvendo na atenção a pacientes com quadro de CNEP, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Para a leitura de relato de casos e do artigo completo, acesse aqui: Crise não epiléptica psicogênica: história e crítica de um conceito, 2011. FONTE: SciELO - Scientific Eletronic Library Online #CNEP #PNES #crisenãoepilepticapsicogenica #crisepseudoepiléptica #epilepsia #descargaeletrica #TEPT #PTSD #estresse #trauma #abuso #dissociativo #transtorno #multiplapersonalidade

  • Nem todo mundo precisa de um psicólogo

    Tem se tornado um jargão da atualidade a ideia de que todo mundo precisa de um psicólogo. Entre amigos, colegas e familiares, a necessidade de um acompanhamento psicológico tem sido posta à mesa das mais diferentes formas, geralmente, justificadas a partir de outros jargões, como: “Todo mundo tem um trauma a tratar”, “ninguém é 100%”, “todo mundo tem, nem que seja alguma coisinha, para falar para o psicólogo”. Mas será mesmo verdade que todo mundo precisa de um profissional da Psicologia? É claro que não. Ainda assim, por que estamos nos habituando com tanta tranquilidade a afirmar que “todo mundo precisa de um psicólogo”? Com a ampliação do número de profissionais da Psicologia no Brasil, o uso corrente dessa ideia pode ter contribuído para aumentar a procura de pessoas pela clínica psicológica, especialmente, com a redução de preconceitos entre aqueles que acreditavam que psicólogo seria um profissional específico para pessoas enlouquecidas. Porém, o efeito colateral desse senso comum de que “todo mundo precisa de um psicólogo” tem revelado alguns prejuízos para a própria Psicologia, sobretudo, pelo raciocínio evidente de que: se todo mundo precisa, ninguém precisa. Vejamos, se, ao invés do profissional psicólogo, afirmássemos: “Todo mundo precisa de um advogado”, quais efeitos isso teria? Seria um completo absurdo, isso porque, se todo mundo precisasse de um advogado, o que estaria em falha não seriam os direitos individuais, mas o próprio sistema de garantias de direitos. Uma outra situação se aplica ao caso da Medicina, se, de repente, afirmássemos: “Todo mundo precisa de um médico”, estaríamos revelando muito mais a ausência de saneamento básico, os problemas bacteriológicos, de saúde pública, virais, epidemiológicos, nutricionais, entre outros, do que de fato enaltecendo as contribuições da Medicina. No caso da Psicologia, o que parece é que, ao sustentar o jargão “todo mundo precisa de um psicólogo”, alguns profissionais se enveredam pelo canto da sereia generalizante que puxa cada vez mais a profissão para o fundo do oceano. A Psicologia, enquanto ciência da subjetividade, precisa pôr em evidência as razões que sustentam os discursos engendrados no tecido sociocultural, a fim de tornar claro que na afirmação rotineira de que “todo mundo precisa de um psicólogo” há muito mais conteúdo dito do que gostaríamos de ouvir. Nas entrelinhas desse jargão, estamos também dizendo que todo mundo está adoecido psiquicamente e que, na atualidade, ninguém tem condições de ter saúde mental. A denúncia é importantíssima para compreendermos o nosso tempo, e é uma ilusão o psicólogo achar que ele detém a resposta que “todo mundo precisa” para resolver os males dessa era obcecada pelo desempenho e pela autoexploração. Aqui reside o canto da sereia que muitos profissionais têm preferido escutar. Em parte, a ideia ingênua contida no jargão “todo mundo precisa de um psicólogo” encontra sustentação na cultura contemporânea do autoempreendedorismo, que convoca profissionais a criarem nichos de mercado a qualquer custo, e, também, no modelo biomédico presente no campo da saúde. Esse modelo, historicamente, tem privilegiado uma compreensão dos fenômenos de saúde-doença dentro de uma lógica individualizante, intrapsíquica, neuronal e biológica, isentando fatores sociais, políticos e culturais de questionamento, o que distancia a análise e correlações entre fenômenos sociais e necessidades clínicas. Por isso, neste contexto, o mal-estar, por mais coletivo que seja, passa a ser visto como individual e cada um que procure um psicólogo de confiança para se “tratar”. É a lógica da clínica intrapsíquica e individualizante em sua capacidade pura de desconectar a necessidade existente do contexto em que ela surge, como se fosse possível uma doença surgir fora do contexto que a produz. Ao desconsiderar o contexto, o risco de culpabilizar o indivíduo por manifestar na pele os problemas de uma época pode ser ampliado. Por isso, é preciso seriamente se perguntar: por que, hoje, todo mundo precisaria de um psicólogo? As contas não fecham. Ou a nossa sociedade está produzindo pessoas adoecidas psiquicamente ou estamos banalizando a potência de contribuição que a Psicologia poderia dar para o desenvolvimento de pessoas mais conscientes de si, de suas histórias e de suas possibilidades de transformação. E essas hipóteses podem atuar conjuntamente. No passado, no contexto educacional, a Pedagogia foi banalizada e usurpada por setores que buscaram minar suas importantes contribuições para a emancipação de pessoas. Agora, a Psicologia parece viver um processo muito semelhante de destituição de suas potências a partir da lógica de que “todo mundo precisa de psicólogo”, fenômeno que revela uma imposição determinista capaz de fazer ruir a própria subjetividade que a profissão almeja alcançar. É preciso que os profissionais da Psicologia resistam ao canto da sereia de generalizar comportamentos passíveis de intervenção psicológica, como fazem os adeptos das fórmulas mágicas e receitas para tudo, e sustentem a subjetividade como eixo direcionador de suas intervenções, garantindo que cada pessoa alcance um reconhecimento pessoal do porquê procurar um psicólogo. Sem formular minimamente essa questão, nenhum processo terapêutico se inicia. Sem isso, é muito provável que a clínica da Psicologia caminhe para se tornar mais uma modinha do momento: “Porque todo mundo precisa”. É claro que diferentes pessoas podem se beneficiar do acompanhamento psicológico com um profissional e isso pode vir a ser uma ajuda muito importante para a compreensão de si mesmo e para o movimento construtivo e reconstrutivo de questões subjetivas, feito que coloca a psicoterapia como um instrumento fundamental para o amadurecimento humano e uma grande contribuição para o desenvolvimento da saúde. Porém, se a lógica da atualidade é que todo mundo precisa de uma psicoterapia, estamos muito mais próximos da revelação do modo de funcionamento social do nosso tempo, cuja ênfase recai sobre o indivíduo, do que propriamente do papel potencial da psicoterapia para o desenvolvimento humano. Se, diante da evidência de que o mundo não vai bem e de que as pessoas estão adoecendo psiquicamente, a cultura contemporânea tem adotado a estratégia de enfiar nos consultórios psicológicos, ou no de outras especialidades, os adoecidos que este tempo produz, justificando que “todo mundo precisa”, não estamos agindo na raiz do problema, apenas individualizando questões através dos compartimentos dos consultórios. Se é esse o anseio da atualidade na busca pela clínica psicológica, é preciso que os próprios profissionais da Psicologia, na honestidade da clínica, frustrem-no, contribuindo para que as questões individuais passem a ser comunitárias. Como afirmou o psicólogo Gilberto Safra (USP), muito do que as crescentes demandas clínicas da atualidade têm revelado é a urgente necessidade de reerguer um mundo comum onde o rosto humano possa ser reconhecido. O espaço de uma clínica profissional especializada, cercada pela segurança de um consultório planejado e estruturado, não isentará ninguém de ver o mundo, pelo contrário, deve ampliar esse olhar. O mal-estar contemporâneo, mais do que nunca, vai além da individualidade historicamente privilegiada na compreensão dos fenômenos psicológicos e de saúde, e nos revela aspectos comunitários fundamentais para que o ser humano possa ter saúde. O mal-estar contemporâneo não poderá ser enfrentado transformando a clínica da Psicologia em lugar desmedido para todo mundo, pois é o mundo que precisa voltar a ofertar a hospitalidade necessária para que o ser se torne humano. Ao invés de afirmar que “todo mundo precisa” de um determinado tipo de profissional/especialidade, poderíamos encaminhar nossos esforços para afirmar que todo mundo precisa de saúde e saúde mental para viver, utilizando conceitos mais amplos que nos coloquem em relação com o mundo comum em que vivemos, reivindicando que a Psicologia e os demais campos do conhecimento reconheçam que, na oferta de cuidado e saúde, o mundo comum é sempre maior do que a clínica de qualquer especialidade. Por Danillo Lisboa, psicólogo, doutorando e pesquisador do Laboratório de Processos de Subjetivação em Saúde da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP FONTE: https://jornal.usp.br/artigos/nem-todo-mundo-precisa-de-um-psicologo/

  • Aranha e o seu simbolismo

    O Animal São animais sem esqueleto interno. A sustentação e a proteção de seu corpo são feitas por uma carapaça externa, composta por uma substância chamada quitina. Essa proteção é extremamente importante para evitar a perda de água, o que permite que as aranhas e outros animais do grupo dos artrópodes (escorpiões, insetos, crustáceos) consigam sobreviver em ambientes muito variados. As aranhas são encontradas desde buracos e frestas no solo a até muitos metros de altura nas copas de árvores; de desertos a florestas úmidas; de ecossistemas totalmente preservados até o centro de grandes metrópoles. Isso se deve também à sua capacidade de produzir abrigos com uma mistura de proteínas denominada seda, secretada por glândulas localizadas no abdômen da aranha. A seda é trabalhada a fim de formar diferentes tipos de teias, utilizadas desde o revestimento de suas tocas até a formação das belíssimas redes de captura de insetos, que são o principal alimento das aranhas. Para capturar seu alimento, as aranhas utilizam um sistema sensorial muito desenvolvido composto por órgãos sensíveis a estímulos químicos (presentes em algumas de suas oito patas) e estímulos físicos (principalmente vibrações). Embora a maioria das aranhas possua oito olhos, poucas utilizam a visão como orientação principal. A dieta é composta também por animais maiores (lagartos, anfíbios, filhotes de roedores e pássaros). Para capturá-los, as aranhas desenvolveram um aparelho venenoso que auxilia na imobilização da presa e na digestão do alimento. O veneno está presente na grande maioria das aranhas (em todo o mundo, são conhecidos somente dois grupos de aranhas sem veneno), e sua composição química é bastante variada entre as espécies. A grande maioria tem veneno pouco tóxico para o organismo humano, como as caranguejeiras. Porém, o veneno de outras afeta o homem de maneira mais grave. Quando se sentem ameaçadas, as aranhas picam para se defender. Várias evidências sugerem que as aranhas evoluíram em condições de privação alimentar. Podem passar por longos períodos de tempo em jejum, consumir grande número de presas quando estas estão disponíveis, expandindo consideravelmente o abdômen, reduzir o metabolismo e sua taxa de crescimento. Essas características sugerem que as aranhas descendem de um ancestral selecionado por ambiente com baixa disponibilidade de alimento. Atualmente, essa situação não é muito diferente, e a maioria das espécies vive em estresse alimentar na natureza. Assim, é de se esperar que características morfológicas e comportamentais evoluam para aumentar a capacidade de captura de presas, minimizando o gasto energético para isso. As estratégias de captura de presas variam desde armadilhas com seda adesiva, mimetizando a presa para evitar a percepção, ou caça ativa. Maioria das aranhas distinguem a presa pela vibração, mas caçadoras ativas possuem a visão aguçada. Uma das estratégias é conhecida como senta-e-espera, em que as aranhas permanecem paradas em um local à espera de presas móveis. Essa forma de captura permite ao predador economizar o máximo de energia entre uma captura e outra, mantendo o metabolismo baixo. Para esse predador, mecanismos que aumentem sua capacidade de detecção e subjugação de presas (fios de seda) são extremamente úteis. As teias podem ser utilizadas para captura de presas, ou como embrulho para esperma e fertilização, para construção de ninhos e como “paraquedas” nos jovens de algumas espécies. Aranhas reproduzem-se sexuadamente e a fertilização é interna, mas indireta. Ao contrário de muitos artrópodes terrestres, aranhas macho não produzem espermatóforos prontos, mas tecem pequenas teias onde eles ejaculam e assim transferem o esperma para os pedipalpos. Os machos são conhecidos por uma variedade de complexos rituais de acasalamento, em geral destinados a evitar serem confundidos pelas fêmeas com presas e consequentemente atacados. Em espécies que tecem teias, padrões de vibrações na teia fazem parte desses rituais, enquanto padrões de toque em diferentes partes do corpo da fêmea são importantes para muitas aranhas que caçam, pois podem “hipnotizar” a fêmea. Gestos e danças do macho são importantes para aranhas saltadoras, que possuem uma excelente visão. Se o galanteio for bem sucedido, o macho injeta o esperma na abertura genital da fêmea, na parte inferior do abdómen. Os machos da maioria das espécies sobrevivem a algumas cópulas, limitadas principalmente por seus curtos períodos de vida. O sistema reprodutivo das fêmeas varia de tubos simples a sistemas que incluem receptáculos seminais, onde elas armazenam o esperma. As fêmeas tecem receptáculos de seda, cada um contendo até centenas de ovos. As fêmeas de muitas espécies cuidam de seus jovens, por exemplo carregando-os junto a si ou compartilhando alimento com eles. Fêmeas põem até 3.000 ovos, em um ou mais receptáculos de seda, que mantêm a humidade constante. Em algumas espécies a fêmea morre após a postura, mas em outras espécies protegem os receptáculos, fixando-os nas suas teias, escondendo-os em ninhos, carregando-os ou fixando-os na fiandeira. Algumas aranhas cuidam de sua prole e fêmeas de algumas espécies respondem ao comportamento de implorar por alimento de suas crias. As aranhas passam o estágio larvar dentro do ovo e eclodem como jovens, pequenos e imaturos, mas com uma forma similar ao adulto. Como outros artrópodes, as aranhas precisam realizar mudas para crescer. Em algumas espécies, os machos acasalam com fêmeas que acabaram de realizar muda, que estão fracas demais para exibir qualquer comportamento agressivo contra os machos. (1)(2) O Simbolismo (Tradução livre) A aranha é um símbolo com três significados distintos; às vezes eles se fundem ou se sobrepõem, às vezes um ou outro predomina. Os três significados são derivados de: a) o poder criativo da aranha, com a tecelagem de sua própria teia; b) a agressividade da aranha; e c) a teia de aranha como uma rede em espiral convergindo para um ponto central. A aranha sentada em sua teia é um símbolo do centro do mundo e é, portanto, considerado na Índia como Maya, a eterna tecelã da teia de ilusões. Os poderes destrutivos das aranhas são também conectados com a sua importância como um símbolo do mundo sensorial. Aranhas, em suas incessantes tecelagens e matanças - construindo e destruindo - simboliza a eterna alternância de forças da qual depende o equilíbrio do universo. Por essa razão, o simbolismo da aranha é profundo, significando o “sacrifício contínuo”, a constante transmutação do homem através do curso de sua vida. Até a própria morte, apenas enrola o fio de uma velha vida para tecer uma nova existência. De forma positiva, a aranha simboliza o encontro da morte e da vida, o sacrifício do velho pela construção do novo. A aranha que constrói sua teia fora do seu corpo simboliza a imaginação, o poder criativo. (3) Maya - Mitologia Hindu É um termo filosófico que tem vários significados: em geral, ele se refere ao conceito da ilusão que constituiria a natureza do universo. Maya deriva da contração de ma, que significa "medir, marcar, formar, construir", denotando o poder de Deus ou do demônio de criar ilusão, e ya, que significa "aquilo". Maya se torna o principal obstáculo para o desapego das seduções do mundo sensorial, para a superação dos enganos criados pelo dualismo e para a conquista da verdadeira iluminação. Seu significado é complexo porque envolve ele mesmo uma dualidade, pois Maya não pode ser real se consideramos o Absoluto (Parabrahman) como a única realidade, mas não pode ser irreal pois é a base de todo o universo objetivo. A realidade última, assim, envolve a compreensão da natureza de Maya sem sua negação, mas distinguindo-a do Absoluto. Nas mitologias orientais, Maya aparece, muitas vezes, personificada como uma deidade, Maya, às vezes tida como uma das formas de Lakshmi ou Durga. Entre seus atributos, está o poder de cegar o devoto com as ilusões, mas também o de revelar-lhe a verdade. Também é identificada com Shakti. (4) Aracne - Mitologia Grega Segundo a mitologia grega, Aracne era uma jovem tecelã que vivia na Lídia, em uma região da Ásia Menor chamada Meônia. Seu trabalho era tão perfeito que, em todas as cidades da Lídia, Aracne ganhou fama de ser a melhor na arte de fiar e tecer a lã. Eram os deuses, com sua generosidade, que concediam às criaturas seus talentos e habilidades, mas os mortais, com sua capacidade natural de esquecer as coisas, às vezes cometiam a tolice de gabar-se de seus próprios feitos. Assim aconteceu a Aracne, que deixou-se dominar pela vaidade e passou a vangloriar-se de sua habilidade como tecelã. Até que um dia alguém veio lembrá-la de que ela era discípula de Atena. Atena (Minerva, na mitologia romana) era filha de Zeus, e além de ser a deusa da Sabedoria, era a deusa que presidia as artes e os trabalhos manuais - a tecelagem inclusive. Aracne ficou extremamente ofendida e, querendo provar sua independência e autossuficiência, caiu na fraqueza de afirmar que podia competir com Atena e seria capaz de derrotá-la na arte da tecelagem. Ao saber da presunção de Aracne, Atenas foi procurá-la disfarçada como uma anciã e pediu-lhe que a escutasse, devido à experiência de sua idade avançada: "Busque entre os mortais toda fama que desejar, mas reconheça a posição da deusa". Porém, a famosa Aracne não percebeu que se tratava de Atena e, além de zombar da anciã, reafirmou seu desafio: "Por que motivo sua deusa está evitando competir comigo?" Ao ouvir isto, Atenas apareceu em sua forma verdadeira, e todos se puseram a reverenciá-la, exceto Aracne, que permaneceu impassível, pois o senso de poder que sua habilidade lhe dava tornava-a ousada em excesso. Atenas desafiou Aracne a provar que seria capaz de vencê-la e as duas deram início à competição. Sentaram-se e começaram a tecer, cada qual procurando produzir a obra vencedora. Atena retratou a cidade de Atenas e os deuses em seus tronos, e entre os deuses a oliveira que ela havia criado durante uma disputa com Posseidon e graças à qual foi proclamada a protetora da cidade. Retratou também Niké, o símbolo da Vitória e nos quatro cantos da tela, desenhou quatro cenas mostrando o que havia acontecido a alguns mortais que desafiaram os deuses e em que eles acabaram sendo transformados. Coroando o trabalho, Atena teceu uma grinalda de folhas de oliveira, que é até hoje um símbolo de paz. Aracne, a perfeita tecelã, retratou o maior de todos os deuses - Zeus - por ocasião de suas conquistas amorosas. E então foi tecendo diversas cenas em que ele aparece disfarçado ou toma a forma de um animal: Zeus, sob a forma de touro, arrebatando Europa; sob a forma de águia, abordando Astéria; sob a forma de cisne, conquistando Leda; sob a forma de sátiro, fazendo amor com Antíope; Zeus fazendo-se passar por Anfitríon para seduzir Alcmene, mãe de Heraclés (Hércules); Zeus, o pastor que fez amor com Mnemosine, mulher-titã; e, ainda, Zeus conquistando Egina, Deméter e Danae, disfarçado, respectivamente, de chama, serpente e chuva de ouro. No afã de "tricotear" sua espantosa obra, Aracne incluiu ainda os amores de Posseidon, Apolo, Dionísio e Cronos. E ao redor de todas as cenas, teceu uma graciosa moldura de hera e flores entrelaçadas. Tão perfeita foi a obra de Aracne que Atena não conseguiu encontrar nela a mínima falha. Irritada, Atena rasgou a tecelagem em pedaços e golpeou Aracne na cabeça. Aracne ficou muito triste e, em seu desespero, terminou tentando se enforcar. Atena, ao saber o que sua cólera havia provocado, compadeceu-se de Aracne e transformou a corda que ela usara para enforcar-se em uma teia. Em seguida, derramou sobre Aracne fluidos retirados das ervas da deusa Hecate e transformou-a em uma aranha. Dessa forma, Aracne foi salva da morte e, embora condenada a ficar dependurada em sua teia, a beleza de sua arte não ficaria perdida para sempre neste mundo. (5) Aranha como Animal de Poder (Tradução livre) Cada "animal de poder" é uma metáfora que representa uma parte do interior da pessoa. Pode ser um animal que você encontra com frequência: ele pode tentar passar uma mensagem ou ele pode ser um animal das sombras (um animal de que você pode ter medo, como uma cobra ou aranha). A aranha como animal de poder pode estar pedindo para você deixar de lado seus medos e lançar sua teia por toda parte. Ele está pedindo que você entre em contato com seu lado criativo e promova novas conexões. Esse animal de poder também pode significar que você precisa fazer uma limpeza interior; limpe partes de você que você não gosta. A aranha como animal de poder também simboliza a transmutação, feminilidade e criação. A aranha anciã foi reverenciada pelos índios nativos como a tecelã do Universo. Os índios Lakota a chamavam de Iktome ou tecelã do poder de cura. Assim, a aranha está ensinando você a suportar sua realidade presente. A aranha usa uma substância pegajosa para tecer uma teia. Da mesma forma, nossos pensamentos tecem uma teia, mas quando você medita sobre este animal de poder, você perceberá a natureza transitória dos pensamentos. A aranha está pedindo que você deixe de lado sua identidade individual e receba o dom da perspectiva de uma aranha. Observe como a sua teia está profundamente interconectada com as dos outros. (6) FONTE: 1) http://www.vitalbrazil.rj.gov.br/aranhas.html 2) https://pt.wikipedia.org/wiki/Aranha 3) LIVRO: A Dictionary of Symbols. Juan Eduardo Cirlot. Routledge: London, 2001. 4) https://pt.wikipedia.org/wiki/Mai%C3%A1 5)https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/11047/1/Dissertacao%20Giselly%20de%20Moraes1.pdf 6) LIVRO: Power Animal Meditations: Shamanic Journeys with Your Spirit Allies. Nicki Scully. Bear&Company: Vermont, 2001.

  • A ESCOLA E O ALUNO COM TDAH, COMO AJUDÁ-LO?

    Algumas técnicas para melhorar a atenção sustentada, memória de trabalho, gestão do tempo, processamento das informações, organização, técnicas de estudos, técnicas de aprendizado, habilidades metacognitivas, inibição de comportamentos e autocontrole. Atenção sustentada e memória de trabalho: 1 – Quando o professor der alguma instrução, pedir ao aluno para repetir as instruções ou compartilhar com um amigo antes de começar as tarefas. 2 – Quando o aluno desempenhar a tarefa solicitada ofereça sempre um feedback positivo (reforço) através de pequenos elogios e prêmios que podem ser: estrelinhas no caderno, palavras de apoio, um aceno de mão… Os feedbacks e elogios devem acontecer SEMPRE E IMEDIATAMENTE após o aluno conseguir um bom desempenho compatível com o seu tempo e processo de aprendizagem. 3 – NÃO criticar e apontar, em hipótese alguma, os erros cometidos como falha no desempenho. Alunos com TDAH precisam de suporte, encorajamento, parceria e adaptações. Esses alunos DEVEM ser respeitados. Isto é um direito! A atitude positiva do professor é fator DECISIVO para a melhora do aprendizado. 4 – Na medida do possível, oferecer para o aluno e toda a turma tarefas diferenciadas. Os trabalhos em grupo e a possibilidade de o aluno escolher as atividades nas quais quer participar são elementos que despertam o interesse e a motivação. É preciso ter em vista que cada aluno aprende no seu tempo e que as estratégias deverão respeitar a individualidade e especificidade de cada um. 5 – Optar por, sempre que possível, dar aulas com materiais audiovisuais, computadores, vídeos, e outros materiais diferenciados como revistas, jornais, livros etc. A diversidade de materiais pedagógicos aumenta consideravelmente o interesse do aluno nas aulas e, portanto, melhora a atenção sustentada. 6 – Utilizar a técnica de “aprendizagem ativa” (high response strategies): trabalhos em duplas, respostas orais, possibilidade de o aluno gravar as aulas e/ou trazer seus trabalhos gravados em pendrive ou nuvem para a escola. 7 – Adaptações ambientais na sala de aula: mudar as mesas e/ou cadeiras para evitar distrações. Não é indicado que alunos com TDAH sentem junto a portas, janelas e nas últimas fileiras da sala de aula. É indicado que esses alunos sentem nas primeiras fileiras, de preferência ao lado do professor, para que os elementos distratores do ambiente não prejudiquem a atenção sustentada. 8 – Usar sinais visuais e orais: o professor pode combinar previamente com o aluno pequenos sinais cujo significado só o aluno e o professor compreendem. Exemplo: o professor combina com o aluno que todas as vezes que percebê-lo desatento durante as atividades, colocará levemente a mão sobre seu ombro para que ele possa retomar o foco das atividades. 9 – Usar mecanismos e/ou ferramentas para compensar as dificuldades memoriais: tabelas com datas sobre prazo de entrega dos trabalhos solicitados, usar post-it para fazer lembretes e anotações para que o aluno não esqueça o conteúdo. 10 – Etiquetar, iluminar, sublinhar e colorir as partes mais importantes de uma tarefa, texto ou prova. Tempo e processamento das informações: 1 – Usar organizadores gráficos para planejar e estruturar o trabalho escrito e facilitar a compreensão da tarefa. 2 – Permitir como respostas de aprendizado apresentações orais, trabalhos manuais e outras tarefas que desenvolvam a criatividade do aluno. 3 – Encorajar o uso de computadores, gravadores, vídeos, assim como outras tecnologias que possam ajudar no aprendizado, no foco e motivação. 4 – Reduzir ao máximo o número de cópias escritas de textos. Permitir a digitação e impressão, caso seja mais produtivo para ao aluno. 5 – Respeitar um tempo mínimo de intervalo entre as tarefas. Exemplo: propor um trabalho em dupla antes de uma discussão sobre o tema com a turma inteira. 6 – Permitir ao aluno dar uma resposta oral ou gravar, caso ele tenha alguma dificuldade para escrever. 7 – Respeitar o tempo que cada aluno precisa para concluir uma atividade. Dar tempo extra nas tarefas e nas provas para que ele possa terminar no seu próprio tempo. Organização e técnicas de estudo: 1 – Dar as instruções de maneira clara e oferecer ferramentas para organização do aluno desenvolver hábitos de estudo. Incentivar o uso de agendas, calendários, post-it, blocos de anotações, lembretes sonoros do celular e uso de outras ferramentas tecnológicas que o aluno considere adequada para a sua organização. 2 – Na medida do possível, supervisionar e ajudar o aluno a organizar os seus cadernos, mesa, armário ou arquivar papéis importantes. 3 – Orientar os pais e/ou o aluno para que os cadernos e os livros sejam “encapados” com papéis de cores diferentes. Exemplo: material de matemática – vermelho, material de português – azul, e assim sucessivamente. Este procedimento ajuda na organização e memorização dos materiais. 4 – Incentivar o uso de pastas plásticas para envio de papéis e apostilas para casa e retorno para a escola. Desta forma, todo o material impresso fica condensado no mesmo lugar minimizando a eventual perda do material. 5 – Utilizar diariamente a agenda como canal de comunicação entre o professor e os pais. É extremamente importante que os pais façam observações diárias sobre o que observam no comportamento e no desempenho do filho em casa, assim como o professor poderá fazer o mesmo em relação às questões relacionadas à escola. 6 – Estruturar e apoiar a gestão do tempo nas tarefas que exigem desempenho em longo prazo. Exemplo: ao propor a realização de um trabalho de pesquisa que deverá ser entregue no prazo de 30 dias, dividir o trabalho em partes, estabelecer quais serão as etapas e monitorar se cada uma delas está sendo cumprida. Alunos com TDAH apresentam dificuldades em desempenhar tarefas em longo prazo. 7 – Ensine e dê exemplos frequentemente. Use folhas para tarefas diárias ou agendas. Ajude os pais, oriente-os como proceder e facilitar os problemas com deveres de casa. Alunos com TDAH não podem levar “toneladas” de trabalhos para fazer em casa num prazo de 24 horas. Técnicas de aprendizado e habilidades metacognitivas: 1 – Explicar de maneira clara e devagar quais são as técnicas de aprendizado que estão sendo utilizadas. Exemplo: explicar e demonstrar na prática como usar as fontes, materiais de referência, anotações, notícias de jornal, trechos de livro etc. 2 – Definir metas claras e possíveis para que o aluno faça sua autoavaliação nas tarefas e nos projetos. Este procedimento permite que o aluno faça uma reflexão sobre o seu aprendizado e desenvolva estratégias para lidar com o seu próprio modo de aprender. 3 – Usar organizador gráfico para ajudar no planejamento, organização e compreensão da leitura ou escrita. Inibição e autocontrole: 1 – Buscar sempre ter uma postura proativa. Antecipar as possíveis dificuldades de aprendizado que possam surgir e estruturar as soluções. Identificar no ambiente de sala de aula quais são os piores elementos distratores (situações que provocam maior desatenção) na tentativa de manter o aluno o mais distante possível deles e, consequentemente, focado o maior tempo possível na tarefa em sala de aula. 2 – Utilizar técnicas auditivas e visuais para sinalizar transições ou mudanças de atividades. Exemplo: falar em voz alta e fazer sinais com as mãos para lembrar a mudança de uma atividade para outra, ou do término da mesma. 3 – Dar frequentemente feedback (reforço) positivo. Assinale os pontos positivos e negativos de forma clara, construtiva, respeitosa. Este monitoramento é importante para o aluno com TDAH, pois permite que ele desenvolva uma percepção do seu próprio desempenho, potencial e capacidade e possa avançar motivado em busca da sua própria superação. 4 – Permitir que o aluno se levante em alguns momentos, previamente combinados entre ele e o professor. Alunos com hiperatividade necessitam de alguma atividade motora em determinados intervalos de tempo. Exemplo: pedir que vá ao quadro (lousa) apagar o que está escrito, solicitar que vá até a coordenação buscar algum material etc. Ou mesmo permitir que vá rapidamente ao banheiro ou ao corredor beber água. Este procedimento é extremamente útil para diminuir a atividade motora e, muitas vezes, é ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO para crianças muito agitadas. FONTE: ALGUMAS ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA ALUNOS COM TDAH https://tdah.org.br/algumas-estrategias-pedagogicas-para-alunos-com-tdah/

  • Trump tem "doença mental perigosa", dizem especialistas em psiquiatria na Conferência de Yale - 2017

    (Tradução Livre) Especialistas em saúde mental dizem que o presidente é "paranoico e delirante". Donald Trump tem uma “doença mental perigosa” e não está apto para liderar os Estados Unidos, alertou um grupo de psiquiatras durante uma conferência na Universidade de Yale. Especialistas em saúde mental alegaram que o presidente era "paranoico e delirante" e que era "responsabilidade ética" dos psiquiatras alertar a população americana sobre os "perigos" que o estado psicológico de Trump representa para o país. Discursando na conferência da Escola de Medicina de Yale, um dos profissionais de saúde mental, Dr. John Gartner, psicoterapeuta que aconselhou residentes psiquiátricos na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins até 2015, disse: “Temos a responsabilidade ética de alertar o público sobre a doença mental perigosa de Donald Trump”. O Dr. Gartner, que também é membro fundador do Duty to Warn – Dever de Avisar, uma organização com dezenas de profissionais de saúde mental, acham que Trump é mentalmente incapaz para ser presidente, disse que a declaração do presidente sobre ter a maior multidão em uma posse foi apenas uma entre muitas que serviu como aviso de um problema maior. “Pior do que ser mentiroso ou narcisista, ele é paranoico, delirante, de pensamento grandioso e provou isso ao país no primeiro dia em que foi presidente. Se Donald Trump realmente acredita que teve o maior tamanho de multidão da história, isso é delirante”, acrescentou. Presidindo o evento, a Drª Bandy Lee, psiquiatra forense, especialista em violência e professora clínica assistente no Departamento de Psiquiatria de Yale, disse: “Como alguns destacados psiquiatras notaram, [a saúde mental de Trump] é o elefante na sala. Acho que o público está realmente começando a entender e a falar amplamente sobre isso agora”. James Gilligan, psiquiatra e professor da Universidade de Nova York, comentou na conferência que trabalhou com algumas das “pessoas mais perigosas da sociedade”, incluindo assassinos e estupradores – e se convenceu sobre a “periculosidade” do Sr. Trump. “Trabalhei com algumas das pessoas mais perigosas que nossa sociedade produz, dirigindo programas de saúde mental nas prisões”, disse ele. “Já trabalhei com assassinos e estupradores. Posso reconhecer a perigosidade em um quilômetro de distância. Você não precisa ser um especialista em perigos ou passar cinquenta anos estudando, como eu fiz, para saber o quão perigoso é esse homem". O Dr. Gartner iniciou uma petição on-line no início de 2017, pedindo a demissão do Sr. Trump do cargo, afirmando que ele é “psicologicamente incapaz de desempenhar com competência as funções de presidente”. A petição foi encerrada com 70.555 assinaturas. Ele declara na petição: “Nós, os profissionais de saúde mental abaixo assinados (indique a sua graduação), acreditamos em nosso julgamento profissional de que Donald Trump manifesta uma doença mental grave que o torna psicologicamente incapaz de desempenhar com competência as funções de Presidente dos Estados Unidos. E, pedimos respeitosamente, que seja destituído do cargo, de acordo com o artigo 4º da 25ª emenda da Constituição, que estabelece que o presidente será substituído se estiver 'impossibilitado de exercer os poderes e deveres de seu cargo'”. As afirmações feitas na conferência geraram críticas de alguns membros de uma instituição psiquiátrica, que dizem violar a "Regra Goldwater" da APA - Associação Americana de Psiquiatria, que afirma que os psiquiatras não devem dar opiniões profissionais sobre pessoas que não examinaram pessoalmente. Eles também foram condenados por republicanos, incluindo o presidente do Partido Republicano de Connecticut, JR Romano, que acusou o grupo de “jogar os padrões éticos pela janela porque não podem aceitar os resultados das eleições”. Em resposta às críticas, o Dr. Gartner disse: “Esta noção de que você precisa entrevistar alguém pessoalmente para formar um diagnóstico, na verdade, não faz muito sentido. Pela simples razão, a pesquisa mostra que a entrevista psiquiátrica é a forma menos confiável estatisticamente de fazer um diagnóstico”. Um porta-voz da Universidade de Yale disse ao The Independent que o painel da conferência obedeceu à “Regra de Goldwater” durante as discussões, mas que a organizadora estava "preocupada" com o "silenciamento do debate". “O painel da Escola de Medicina de Yale obedeceu à ‘Regra Goldwater’. Eminentes psiquiatras foram convidados a falar sobre a existência de outras regras éticas que a sobreponha, como na prática comum”, disse o porta-voz. “A organizadora, Drª Bandy Lee, concorda com a ‘Regra Goldwater’, mas está preocupada com sua recente expansão (em 16 de março de 2017) e o silenciamento do debate. Ela espera que o público e os políticos entendam que as questões de saúde mental não devem ser usadas como uma arma, assim como outros problemas de saúde não são”. “O Dr. Gartner foi convidado como ativista e não estava no painel propriamente dito, nem o porta-voz do evento”. A organizadora enfatiza que o evento [petição] foi estruturado de forma independente e não representou os pontos de vista da Universidade de Yale ou da Escola de Medicina de Yale. Os médicos disseram que mesmo que isso viole os padrões éticos da tradição da psiquiatria, era necessário quebrar o silêncio sobre o assunto porque temem que “haja coisa demais em jogo”. Não é a primeira vez que a saúde mental de Trump é questionada. Em fevereiro de 2017, o Duty to Warn – Dever de Avisar, formado por psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais, assinou uma carta aberta, alertando que o estado mental de Trump “o torna incapaz de atuar com segurança como presidente”. A carta advertia que a tendência do presidente de "distorcer a realidade" para se adequar ao seu "mito pessoal de grandeza" e atacar aqueles que o desafiam com fatos, provavelmente, aumentará em uma posição de poder. FONTE: https://www.independent.co.uk/news/world/americas/donald-trump-dangerous-mental-illness-yale-psychiatrist-conference-us-president-unfit-james-gartner-duty-warn-a7694316.html

  • O Conceito de Neurodiversidade Está Dividindo a Comunidade do Autismo

    Isso continua sendo uma controvérsia, mas não precisa ser de acordo com Simon Baron-Cohen que é Diretor do Autism Research Center da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e Presidente da International Society for Autism Research. (Tradução Livre) No encontro anual da Sociedade Internacional para Pesquisa do Autismo - INSAR - International Society for Autism Research - em Montreal, Canadá, em maio de 2019, um tópico amplamente debatido foi o conceito de neurodiversidade que está dividindo a comunidade do autismo, porém sem necessidade. O termo neurodiversidade ganhou popularidade nos últimos anos, entretanto foi utilizado pela primeira vez por Judy Singer, uma socióloga australiana, autista, em 1998. A neurodiversidade está relacionada ao conceito mais familiar de biodiversidade, e ambos são formas respeitosas de pensar sobre nosso planeta e nossas comunidades. A ideia de neurodiversidade é muito semelhante aos argumentos postulados pelos Direitos Civis para que as minorias tenham dignidade e aceitação, e não sejam “patologizadas”. Embora o Movimento da Neurodiversidade reconheça que os pais ou pessoas autistas possam escolher entre diferentes intervenções para os sintomas específicos que podem causar sofrimento, o movimento desafia a suposição padrão de que o próprio autismo é uma doença ou um transtorno que precisa ser erradicado, prevenido, tratado ou curado . Muitas pessoas autistas - especialmente aquelas que têm linguagem intacta e sem dificuldades de aprendizagem que podem se autodefender - adotaram o fundamento da neurodiversidade, cunhando o termo "neurotípico" para descrever a maioria dos tipos de cérebro e vendo o autismo como um exemplo de diversidade no conjunto de todos os possíveis tipos de cérebros, nenhum dos quais seriam “normais”, mas simplesmente seriam todos diferentes. Eles argumentam que em ambientes altamente sociais e imprevisíveis algumas de suas diferenças podem se manifestar como deficiências, enquanto em ambientes com traços autísticos as limitações podem ser minimizadas, permitindo que outras discrepâncias floresçam como talentos. A perspectiva da neurodiversidade nos lembra que a deficiência e até mesmo o transtorno podem corresponder à adaptação pessoa-ambiente. Para exemplificar uma pessoa autista: “Somos peixes de água doce em água salgada. Coloquem-nos em água doce e funcionaremos perfeitamente. Coloquem-nos em água salgada e lutaremos para sobreviver”. Existem também aqueles que, embora adotem alguns aspectos do conceito de neurodiversidade aplicado ao autismo, argumentam que os graves desafios enfrentados por muitas pessoas autistas se encaixam melhor em um modelo clínico clássico. Muitos são pais de crianças autistas ou indivíduos autistas que lutam consideravelmente em vários ambientes, que podem não ter quase linguagem, que apresentam graves dificuldades de aprendizagem, que sofrem de dor gastrointestinal ou epilepsia, que parecem estar em angústia sem motivo aparente ou que atacam a si mesmos ou a outros. Muitos dos que adotam o modelo clínico do autismo clamam pela prevenção e cura das graves deficiências que podem estar associadas ao autismo. Em contraposição, aqueles que apoiam a neurodiversidade veem essa expressão como uma ameaça à existência de pessoas autistas, como a eugenia. Não me surpreendo que este conceito esteja causando tal divisão. No entanto, eu argumento que esses pontos de vista não são mutuamente exclusivos, mas sim que podemos integrar ambos, reconhecendo que o autismo contém uma ampla heterogeneidade. Antes de abordarmos a heterogeneidade, uma observação técnica sobre algumas terminologias: o termo “transtorno” é usado quando um indivíduo apresenta sintomas que estão causando disfunção e cuja causa é desconhecida, enquanto que o termo “doença” é utilizado quando um transtorno pode ser atribuído a um mecanismo causal específico. O termo “deficiência” é usado quando um indivíduo está abaixo da média em uma medida padronizada de funcionamento e quando isso causa sofrimento em um ambiente particular. Em contraste, o termo “diferença” simplesmente se refere à variação em uma característica, como olhos azuis ou castanhos. Então, qual é a enorme heterogeneidade no espectro do autismo? Uma origem está na linguagem e na inteligência: como eu mencionei, algumas pessoas autistas não têm linguagem funcional e apresentam severo retardo de desenvolvimento - ambos os quais eu consideraria transtornos; outras têm dificuldades de aprendizagem mais leves; enquanto outras têm habilidades de linguagem na média ou superior e QI médio ou mesmo superior. O que todos os indivíduos no espectro do autismo têm em comum são as dificuldades de comunicação social (que são deficiências) e as dificuldades de adaptação a mudanças inesperadas (outra deficiência), um amor pela repetição ou "necessidade de mesmice", ou seja, interesses excepcionalmente restritos, e a hiper ou hipossensibilidade sensorial (todos os exemplos de diferença). O autismo também pode estar associado a potencialidades cognitivas e até talentos, principalmente na atenção e na memória para detalhes, e um forte impulso para detectar padrões (todas essas são diferenças). O modo como tudo isso se manifesta provavelmente é influenciado fortemente pela linguagem e pelo QI. A outra fonte para a imensa heterogeneidade é que o autismo é frequentemente acompanhado por comorbidades. Há a dor gastrointestinal, epilepsia e TDAH (todos exemplos de transtornos e, às vezes, doenças), dispraxia e dislexia (ambos exemplos de deficiências) e ansiedade e depressão (ambos exemplos de condições de saúde mental). Esta é apenas uma lista parcial. Um estudo recente mostra que 50% das pessoas autistas têm, pelo menos, quatro dessas condições concomitantes (incluindo transtorno de linguagem ou dificuldades de aprendizagem), e mais de 95% das crianças autistas têm, pelo menos, uma condição associada ao autismo. A relevância disso para o debate da neurodiversidade é que, se mergulharmos na ampla gama de características que são vistas no autismo, encontraremos diferenças e deficiências (ambas compatíveis com o fundamento da neurodiversidade) e encontraremos exemplos de transtornos e até doenças , que são mais compatíveis com um modelo clínico do que com o modelo de neurodiversidade. Em relação às evidências científicas, há indícios para ambos tanto para neurodiversidade quanto para transtorno. Por exemplo, a nível genético, cerca de 5 a 15 por cento da variação no autismo pode ser atribuída a variantes/mutações genéticas raras, muitas das quais causam não apenas autismo, mas também atrasos graves de desenvolvimento (transtornos), enquanto cerca de 10 a 50 por cento da variação no autismo pode ser atribuída a variantes genéticas comuns, como Polimorfismos de Nucleotídeo Único (SNPs), que simplesmente refletem diferenças individuais ou variações naturais. Em nível neural, algumas regiões do cérebro autista - como a amígdala, na infância - são maiores e outras - como a região posterior do corpo caloso - são menores. Essas são evidências de diferenças, mas não necessariamente de transtorno. O supercrescimento cerebral precoce é outro sinal de diferença, porém não necessariamente de transtorno. Estudos post-mortem do cérebro autista revelam um maior número de neurônios no lobo frontal, sugerindo que pode haver apoptose reduzida - ou poda das conexões neurais - no autismo, mas, novamente, isso pode ser apenas evidência de diferença, e não de transtorno. Contra isto, diferenças estruturais nas áreas de linguagem do cérebro em indivíduos autistas, que são minimamente verbais, podem ser um sinal de transtorno. Os estudos de Ressonância Magnética funcional - RMf - às vezes mostram menos ou mais atividade cerebral durante tarefas diferentes e, novamente, isso pode ser interpretado em termos de diferença e deficiência, mas não é uma evidência clara de transtorno. Por outro lado, onde indivíduos autistas apresentam epilepsia evidenciada em procedimento eletrofisiológico, isso é um sinal de transtorno ou mesmo de doença. Em níveis comportamental e cognitivo, as pessoas autistas apresentam diferenças, sinais de deficiência e transtorno. Por exemplo, crianças autistas podem olhar por mais tempo para estímulos não sociais do que para estímulos sociais, e pessoas autistas podem mostrar seu melhor desempenho em testes de QI no subteste Cubos, talvez refletindo a forte aptidão para atenção aos detalhes e montagem de informações complexas com partes componentes. Ambos são simplesmente diferenças, compatíveis com o modelo de neurodiversidade. Aspectos da cognição social refletem áreas de deficiência no autismo e muitas vezes são a razão pela qual procuram e recebem um diagnóstico. Entretanto, se uma pessoa autista tem graves dificuldades de aprendizagem ou é minimamente verbal - definido como tendo menos de 30 palavras, isso está indiscutivelmente além da neurodiversidade e é mais compatível com o modelo clínico. Em suma, há um caso em que todos os termos “transtorno”, “deficiência”, “diferença” e “doença” são aplicáveis ​​a diferentes formas de autismo ou às condições coexistentes. A neurodiversidade é um fato da natureza; nossos cérebros são todos diferentes. Portanto, não há sentido em ser um negador da neurodiversidade, mais do que ser um negador da biodiversidade. Contudo, ao olharmos de perto a heterogeneidade dentro do autismo, podemos ver como às vezes o modelo de neurodiversidade se ajusta muito bem ao autismo, e que às vezes o modelo de transtorno/clínico é uma explicação melhor. O que é atraente sobre o modelo de neurodiversidade é que ele não “patologiza” e não se concentra desproporcionalmente naquilo com que a pessoa luta e, em vez disso, tem uma visão mais equilibrada, para dar igual atenção ao que a pessoa pode fazer. Além disso, reconhece que a variação genética ou outros tipos de variação biológica são intrínsecos à identidade das pessoas, como senso de individualidade e personalidade, que devem receber respeito igual ao lado de qualquer outra forma de diversidade, como gênero, por exemplo. Entretanto, para abranger a amplitude do espectro do autismo, precisamos abrir espaço para o modelo clínico também. FONTE: https://blogs.scientificamerican.com/observations/the-concept-of-neurodiversity-is-dividing-the-autism-community/ https://www.eurekalert.org/pub_releases/2019-04/rai-isf040119.php https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1998/09/neurodiversity/305909/ https://www.spectrumnews.org/news/co-occurring-conditions-alter-timing-autism-diagnosis/

  • SETEMBRO AMARELO – campanha brasileira inspirada no Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio, 10/9

    O maior representante da Prevenção ao Suicídio é o CVV – Centro de Valorização da Vida – ligue 188 No Ocidente, o suicídio é um ato consciente de autoaniquilação, melhor compreendido como uma doença multidimensional num indivíduo carente que acredita ser o suicídio a melhor solução para resolver um problema. (SHNEIDMAN, 1987). · Quase 800 000 pessoas morrem devido ao suicídio todos os anos. · Para cada suicídio, há muito mais pessoas que tentam o suicídio todos os anos. Uma tentativa anterior de suicídio é o fator de risco mais importante para suicídio na população em geral. · O suicídio é a terceira causa de morte em jovens de 15 a 19 anos. · 79% dos suicídios globais ocorrem em países de baixa e média renda. (WHO, 2019) Em muitos países, como Austrália, Reino Unido e Suécia, após diversas ações de prevenção, os números começam a diminuir, o que não se aplica ao Brasil, onde os casos só aumentam. O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo: decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia. (Albert Camus) A PREVENÇÃO do suicídio pode ser primária, secundária e terciária, e a POSVENÇÃO deve conter intervenções psicossociais, ambientais e socioculturais. PREVENÇÃO – ao sujeito com ideação suicida Fatores de alerta que merecem atenção da criança ou adolescente: • Irritação ou agitação excessiva; • Sentimento de tristeza, baixa autoestima e impotência; • Tentativas prévias de suicídio; • Relatos de violência psicológica (humilhação, agressões verbais), física, sexual ou negligência; • Problemas de saúde mental da criança, do adolescente e/ou de seus familiares, especialmente a depressão e ansiedade; • Uso de álcool e/ou outras drogas; • Histórico familiar de suicídio; • Ambiente familiar hostil; • Falta de suporte social e sentimentos de isolamento social; • Sofrimento e inquietações sobre a própria sexualidade; • Interesse por conteúdos de comportamento suicida ou autolesão em redes sociais virtuais. Em adultos, alguns dos sinais de alerta mais comuns, além dos já mencionados, são: • Isolamento afetivo e sentimento de solidão; • Sentimento de desamparo e desesperança; • Autodesvalorização; • Aquisição de meios para morrer de suicídio; • Crise existencial; • Exposições frequentes a situações de risco. POSVENÇÃO – aos sujeitos enlutados por suicídio: os sobreviventes Qualquer ato apropriado e de ajuda que aconteça após o suicídio com o objetivo de auxiliar os sobreviventes a viver mais, com mais produtividade e menos estresse que eles viveriam se não houvesse esse auxílio. (SHNEIDMAN,1973) São ações, atividades, intervenções, suporte e assistência para aqueles impactados por um suicídio completo, ou seja, os sobreviventes. É uma ferramenta reconhecida mundialmente como um componente importante no cuidado da saúde mental dessas pessoas. Sobreviventes são todas as pessoas afetadas por um suicídio: pais, filhos, irmãos, familiares, amigos, colegas, dentro outros. Além disso, pessoas que perderam alguém significativo por suicídio e aquelas que tiveram a vida afetada ou mudada por causa dessa morte são consideradas sobreviventes. Os objetivos da posvenção são: · Trazer alívio dos efeitos relacionados com o sofrimento e a perda. · Prevenir o aparecimento de reações adversas e complicações do luto. · Minimizar o risco de comportamento suicida nos enlutados por suicídio. · Promover resistência e enfrentamento em sobreviventes (BEAUTRAIS, 2004; SCAVACINI, 2011) A maioria dos sobreviventes não conta com ajuda para lidar com o luto. “A morte de uma pessoa não é somente um fim: é também um começo para os sobreviventes.” (SHNEIDMAN, 1973) Alguns exemplos do que os enlutados por suicídio podem precisar: · Auxílio e aconselhamento em assuntos práticos. · Informações – com a consciência de que os indivíduos podem estar desorganizados, logo após a morte, e podem precisar que as informações sejam oferecidas novamente em um momento posterior, ou de uma fonte diferente. · Suporte – assistência particular ou terapia com profissionais de saúde mental. · Oportunidade de conversar com outras pessoas que estão enlutadas por suicídio. FONTES: POSVENÇÃO. https://vitaalere.com.br/sobre-o-suicidio/posvencao/o-que-e-posvencao/ Shneidman, E. S. (1973). Deaths of Man. New York: Quadrangle. Shneidman, E. S. (1987). A psychological approach to suicide. In G. R. VandenBos & B. K. Bryant (Eds.), Master lectures series. Cataclysms, crises, and catastrophes: Psychology in action (p. 147–183). American Psychological Association. https://doi.org/10.1037/11106-004 Beautrais, A. L. (2004). Suicide Postvention: Support for families, Whanau and significant others after a suicide – A literature review and synthesis of evidence. https://www.health.govt.nz/system/files/documents/publications/bereavedbysuicide-litreview.pdf Scavacini, K. (2011). Suicide Survivors Support Services and Postvention Activities: The availability of services and an intervention plan in Brazil (Dissertação). Estocolmo, Suécia: Karolinska Institutet, Programa em Saúde Pública, Departamento de Promoção de Saúde Mental e Prevenção do Suicídio. WORLD HEALTH ASSOCIATION. Suicide, 2 de Setembro de 2019. Disponível em: https:// www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide CARTILHA DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO. https://portal.fiocruz.br/noticia/covid-19-e-saude-mental-cartilha-aborda-prevencao-do-suicidio CVV - Centro de Valorização da Vida. https://www.cvv.org.br/ Em caso de risco de suicídio iminente, ligar para 190 ou 192 e solicitar atendimento. #suicidio #CVV #188 #prevençao #posvençao #WHO #OMS #SHNEIDMAN #SCAVACINI #vitaalere #FIOCRUZ #vida #valorizaçao #setembro #amarelo #ideaçao #saude #mental #sobrevivente #enlutado #luto #sofrimento #perda #desesperança #desamparo

  • Ligar o Sono ou Desligar a Vigília?

    Desde a Antiguidade até quase a metade do século 20, acreditou-se que o sono ocorria passivamente quando os estímulos sensoriais diminuíam, por exemplo, quando o animal procurava um ambiente tranquilo e escuro para repousar, reduzindo o nível de ativação do cérebro. Pode-se dizer que foi graças a uma epidemia de encefalite letárgica, a "doença do sono", que essa visão começou a mudar. No inverno europeu de 1918-1919, milhares de pessoas foram atingidas pela encefalite letárgica, que curiosamente causava efeitos opostos em pessoas diferentes: algumas ficavam efetivamente letárgicas, num estado de sonolência permanente, enquanto outras eram atacadas pela insônia. Fazendo a autópsia de pacientes derrubados pela encefalite, o barão austríaco Constantin von Economo (1876-1931), neurologista eminente da época, descobriu que, regularmente, uma certa região do cérebro havia sido lesada nos insones e outra nos letárgicos. Os insones foram reveladores. Se a ocorrência de sono dependia do funcionamento de uma porção do cérebro, o processo cerebral de adormecer ou acordar não podia mais ser tão passivo assim. Semelhante a Broca, que identificara uma área frontal do cérebro como o “centro da fala” pelos sintomas causados por sua destruição, von Economo anunciou ter descoberto o “centro do sono”. Foi o suíço Walter Hess (1881-1973) que explorou de forma experimental a novidade do controle ativo do sono, lesando ou estimulando eletricamente porções definidas do cérebro do gato. Em 1922, ele pôde atribuir o controle do sono a duas regiões próximas do hipotálamo, com funções opostas: uma necessária ao sono, outra, à vigília. A descoberta lhe valeu o prêmio Nobel de medicina ou fisiologia de 1949. No mesmo ano de 1949, o italiano Giuseppe Moruzzi (1910-1986) e o americano Horace Magoun (1907-1991) cometeram um erro providencial. Posicionaram errado os eletródios que empregavam para estimular o cérebro do gato, e por acaso descobriram que a estimulação elétrica da formação reticular mesencefálica causava modificação no EEG semelhante à que ocorre na transição do sono à vigília. Moruzzi e Magoun chamaram o processo de “ativação do EEG”. Um detalhe importante é que o processo de ativação independia de estímulos sensoriais, sugerindo que a formação reticular poderia funcionar como um centro interno de controle do estado do cérebro. E não era só isso: 10 anos depois, o trabalho do francês Michel Jouvet deixaria claro que a mesma formação reticular que ativa o cérebro na transição à vigília também é ativada durante um determinado estado do sono. Este estado é o de sono paradoxal, descoberto por Nathaniel Kleitman e seu estudante Eugene Aserinsky, em 1953, e logo associado ao período em que acontecem os sonhos. Quer dizer: o cérebro controla ativamente o sono, e é estimulado pela formação reticular mesencefálica não só para sair dele, mas também para iniciar os sonhos. AUTORA: Suzana Herculano-Houzel, Professora-adjunta do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. FONTE: Livro: LENT, Roberto. Cem Bilhões de Neurônios? Conceitos fundamentais de neurociência. 2ª Edição. São Paulo: Editora Atheneu, 2010. #cerebro #sono #vigilia #formaçaoreticular #centrodosono #EEG #doençadosono #encefaliteletargica #insonia #sonolencia #sonho #UFRJ #LENT

  • O uso do videogame no tratamento de Déficit de Atenção em crianças

    A aprovação de agência americana abre caminho para a utilização da realidade virtual para distúrbios mentais. Em decisão inédita, a FDA, a agência dos Estados Unidos que regula os remédios, aprovou um jogo de videogame para o tratamento médico de crianças. Desenvolvida pela empresa de medicina digital americana Akili Interactive Labs com o nome comercial de EndeavorRx, a diversão é recomendada para o controle de um transtorno psíquico infantil, o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). O distúrbio é diagnosticado em torno dos 7 e 8 anos de idade e, por uma razão ainda desconhecida, acomete sobretudo os meninos. A prevalência global é de 5%. Os sintomas são desatenção, impulsividade e hiperatividade. A vida escolar é afetada. Quem sofre do problema e não é acompanhado tem notas baixas e é tachado de preguiçoso, malcriado e aéreo injustamente. O pulo do gato do videogame é conseguir prender a atenção da criança e exigir que ela monitore duas tarefas simultaneamente, melhorando a capacidade de atenção. “Esse produto mostra o impacto que a tecnologia pode ter no funcionamento cerebral, sobretudo na infância”, diz o psiquiatra Guilherme Polanczyk, professor de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade de São Paulo. Na brincadeira, o usuário conduz uma nave voadora por um percurso cheio de obstáculos, em que precisa evitar riscos como fogueiras ou minas subaquáticas. Ao mesmo tempo, coleciona alvos ao longo do caminho. O game tem ainda algoritmos que podem se adaptar em tempo real para ajustar o nível de dificuldade, dependendo de quem está no comando, e assim personalizar o tratamento. A região do cérebro estimulada pelo enredo é o córtex pré-frontal, área com maior impacto no TDAH. É por meio dela que se desenvolvem a concentração, o controle de impulsos, o planejamento, a tomada de decisão e a conscientização. Diz o psiquiatra Luiz Roh­de, professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenador do programa de déficit de atenção do Hospital de Clínicas de Porto Alegre: “É promissor, mas ainda é cedo para ser definido como um recurso terapêutico definitivo”. O tratamento do TDAH é feito tradicionalmente com anfetaminas, como a Ritalina e o Adderall. Elas acalmam e são celebradas por isso. Trata-se, contudo, de substâncias viciantes que, em excesso, podem desencadear problemas respiratórios, taquicardia, depressão e ansiedade. Os games também têm efeitos colaterais, que incluem dor de cabeça e sensação forte de frustração, mas são claramente mais leves. Nos Estados Unidos, é preciso receita médica para baixar o jogo. No Brasil, ele ainda não foi aprovado pelas autoridades de saúde. No passado recente, jogos eletrônicos têm sido usados em crianças com outros tipos de problemas psíquicos, em especial o autismo, e com bons resultados. A realidade virtual treina o contato olho no olho e estimula a interação social. Mas é a primeira vez que o uso tem um aval oficial. Publicado na Revista VEJA de 1 de julho de 2020, edição nº 2693 FONTE: https://veja.abril.com.br/saude/o-uso-do-videogame-no-tratamento-de-deficit-de-atencao-em-criancas/ #TDAH #realidadevirtual #cerebro #videogame #disturbio #mental #FDA #EndeavorRx #crianças #jogos #brincar #medicina #digital #Akili #cortex #prefrontal #infantil #diversao #escolar #desatençao #impulsividade #hiperatividade #atençao #concentraçao #frustraçao #preguiçoso #malcriado #aereo #tecnologia #USP #UFRGS #ritalina #adderall

  • Terapia EMDR usa estímulos sensoriais para superar traumas

    Método é opção de tratamento em saúde mental. O consenso entre psiquiatras e psicólogos é que ninguém estava preparado para encarar um momento como este e, por isso, a saúde mental deve ser a próxima onda da pandemia a ser enfrentada.  “Por mais que o ser humano tenha a capacidade de se adaptar às novas condições, isso gera uma sobrecarga constante, que produz stress e insegurança, como numa situação de guerra”, diz Alfredo Maluf, psiquiatra no Hospital Albert Einstein. Transtornos de ajustamento, ansiedade, depressão e, nos quadros mais graves, até stress pós-traumático são alguns dos problemas que já despontam.  Das indicações para encarar esses novos tempos, são as terapias o principal método para melhorar o grau de resiliência e reforçar o sistema de adaptação. No país, a terapia cognitivo-comportamental  (mais breve e focada em um problema atual) é a mais usada e conhecida para esses casos. Porém, há um grupo de psicólogos que tem levantado a bandeira do Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR), em português, dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares, técnica aprovada pela Organização Mundial da Saúde. “É uma abordagem diferente e que tem tido bons resultados, mesmo  que pouco conhecida”, diz a psicóloga Ana Lucia Castello, presidente da Associação Brasileira de EMDR.  O procedimento, que tem oito fases, trabalha o reprocessamento da memória para que ela não cause mais sofrimento. São reforçadas as crenças positivas, e essas passam a ser um recurso para lidar com as situações dolorosas. “Nas primeiras etapas, o psicólogo analisa o histórico do paciente, seleciona a memória (traumática), avalia o nível de resiliência e mostra recursos disponíveis para quando estiver em um momento tenso”, explica. Nas fases seguintes, são montadas a dessensibilização e o reprocessamento dessas lembranças. É a parte física, quando são feitos estímulos no paciente, que podem ser oculares, em que os olhos se movem de um lado para o outro, acompanhando um feixe de luz que passa por uma barra, ou tátil, em que sente esses estímulos feitos pelo psicólogo com o toque, ou mesmo com um aparelho que emite vibrações e que o cliente segura as pontas em cada mão. Enquanto sente as vibrações ou mexe os olhos, é orientado a pensar na imagem que causa dor. “Com o estímulo contínuo dos dois lados do corpo, ocorre a sincronização dos hemisférios do cérebro, o lógico e o emocional, e a pessoa acessa a memória e a processa até não ter mais incômodo”, explica a psicóloga Vanessa Gebrim, que trabalha com o método há doze anos. Quando a lembrança não causar mais efeito ruim, o indivíduo é guiado a reforçar pensamentos positivos sobre si mesmo. “É como se a memória negativa estivesse deslocada e atrapalhando no cérebro e, na terapia, é processada e adaptada. No lugar, é inserida uma crença positiva, para ajudar quando se sentir em uma situação similar”, diz Ana Lucia.  O médico residente Rafael Costa, 24, optou pela terapia quando se viu na linha de frente do atendimento dos pacientes de Covid-19 na área de oncologia do Hospital das Clínicas. “A gente fica muito impactado com a situação, e tudo o que é novo me deixa ansioso.” Ele já conhecia o método e faz consultas on-line para trabalhar a concentração. “Enxergo melhor a realidade e não deixo a emoção prejudicar o trabalho.” O número de encontros, que podem durar de uma hora a uma hora e meia, varia conforme o caso. A psicóloga Fabiana Brandão explica que outra queixa é a crença no futuro negativo e a falsa ideia de que vai falhar. “A pessoa nem sabe por que se sente assim, e a pandemia tem desencadeado mais esses sentimentos.”  Para a professora Gisele Inácio, 33, os hospitais causavam pânico. Em 2015, fez um transplante de medula óssea como tratamento da doença de Crohn. Além de três meses de isolamento no hospital, precisou ficar mais um período reclusa em casa. “A doença voltou e meu mundo desabou. Procurei ajuda psicológica para enfrentar a depressão.” A aversão aos centros médicos ficou mais intensa e os procedimentos viraram uma tortura. “Tenho de repetir os exames todo ano e era horrível para mim.” Com o tema trabalhado no EMDR, ela melhorou. “Eu mesma preparo a solução que preciso ingerir antes dos  procedimentos.” O isolamento atual chegou a preocupar, mas logo foi processado e superado. Já para o consultor D.R.M., 37, uma turbulência vivida em uma viagem há quase dez anos fez surgir o medo de voar. “Só de comprar as passagens minha mão começava a suar e, quando viajava, precisava de um dia para descansar o corpo, de tão tenso que ficava.” Por quatro anos, para evitar o stress, inventava desculpas para não viajar e isso começou a prejudicá-lo. “Estava cético com o método e só na terceira sessão comecei a levar mais a sério, e deu certo.” Hoje, comemora as férias passadas em Pernambuco e no Canadá.  FONTE: https://vejasp.abril.com.br/saude/conheca-a-nova-terapia-emdr-usa-estimulos-sensoriais-para-lidar-com-traumas/ #veja #EMDR #trauma #depressao #terapia #cura #medo #estimulo #bilateral #OMS #HC #Einstein #hospital #estresse #stress #TEPT

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